Um Chamado Ancestral

Vernissage no CCBB Brasília celebra a força estética e política da diáspora africana em uma exposição que conecta arte, história e identidade nas Américas.

 

Na noite da última terça-feira (3), o Centro Cultural Banco do Brasil Brasília abriu suas portas para uma celebração que foi muito além de uma simples vernissage. A inauguração da exposição “Ancestral: Afro-Américas” , que tem direção artística de Marcello Dantas, curadoria de Ana Beatriz Almeida e Renato Araújo da Silva, reuniu artistas, curadores, jornalistas e convidados em um encontro que misturou arte, música, memória e uma boa dose de emoção – daqueles eventos que lembram que a arte também é um ritual de pertencimento.

A Coluna #PERAMBULANDO marcou presença no evento que, logo na chegada, já revelava que algo de muito especial pairava no ar. Graças a uma visita guiada promovida por Ana Beatriz Almeida, foi possível entender o peso simbólico da mostra para o diálogo cultural e para a valorização das heranças africanas nas Américas. Ela destacou os caminhos conceituais que estruturam a exposição: uma jornada estética que atravessa história, identidade e memória

Mas como toda boa noite de arte pede também trilha sonora, o público foi brindado com um pocket show da cantora Virginia Rodrigues, acompanhada pelo músico brasiliense Alberto Salgado. A apresentação, intensa e elegante, funcionou como uma espécie de prólogo musical para a exposição: um mergulho sensível nas matrizes afro-diaspóricas que inspiram toda a mostra. Depois disso, cerca de 280 convidados seguiram para um coquetel com sabores da gastronomia afro-brasileira — um detalhe delicioso que parecia prolongar, no paladar, a narrativa cultural apresentada nas galerias.

Entre os momentos mais tocantes da noite esteve a presença de familiares do artista Willy Bezerra de Mello, conhecido como OluMello, cuja obra integra a exposição. Sua viúva, Lydia Garcia, escolheu celebrar ali mesmo seu aniversário de 88 anos, transformando a ocasião em uma homenagem dupla: à vida e à arte. Carioca, OluMello chegou a Brasília ainda em 1958 para integrar a equipe de Oscar Niemeyer no planejamento arquitetônico da nova capital, um elo curioso entre a história da cidade e a exposição que agora ocupa suas paredes.

E falando em paredes, prepare-se: “Ancestral: Afro-Américas” é daquelas mostras que pedem tempo, olhar atento e mente aberta. Reunindo cerca de 130 obras de artistas negros do Brasil e dos Estados Unidos, a exposição propõe um mergulho na potência estética, política e simbólica da ancestralidade africana nas Américas — um diálogo transatlântico que atravessa séculos e continua produzindo arte de tirar o fôlego.

Entre os nomes presentes estão verdadeiros pesos pesados da arte moderna e contemporânea, como Abdias Nascimento, Simone Leigh, Sonia Gomes, Leonard Drew, Mestre Didi, Melvin Edwards, Lorna Simpson, Kara Walker, Arthur Bispo do Rosário, Carrie Mae Weems, Mônica Ventura e Julie Mehretu. Cada um deles, à sua maneira, ajuda a construir esse grande mosaico de histórias, resistências e reinvenções.

A exposição está organizada em três núcleos temáticos — Corpo, Sonho e Espaço, que funcionam quase como capítulos de um mesmo livro visual.

No núcleo Corpo, as obras questionam a forma como pessoas negras foram representadas ao longo da história da arte, reafirmando o corpo como território de identidade, resistência e afirmação. Já em Sonho, a atmosfera se torna mais contemplativa: ali, os artistas exploram memória, espiritualidade e herança cultural, expandindo os limites da abstração. Por fim, em Espaço, surgem reflexões sobre território, comunidade e pertencimento, misturando paisagens naturais, urbanas e simbólicas em narrativas que atravessam fronteiras.

A narrativa curatorial também parte de uma metáfora instigante proposta por Marcello Dantas: a história imaginária de dois primos africanos separados no século XVIII, um levado para Salvador e outro para Charleston, nos Estados Unidos. Dois destinos distintos, dois séculos de história — e, ainda assim, uma chama ancestral que continua viva, pulsando na arte e na cultura dos dois lados do Atlântico.

Entre os destaques contemporâneos, a exposição apresenta trabalhos inéditos de artistas como Gabriella Marinho e Gê Viana, além de obras de Simone Leigh — primeira mulher afro-americana a representar os Estados Unidos na Bienal de Veneza. Já o artista Nari Ward criou uma obra especialmente para a mostra em território brasileiro, incorporando objetos do cotidiano e reforçando esse intercâmbio criativo entre países.

Outro capítulo interessante da exposição é o núcleo dedicado à Arte Africana Tradicional, com curadoria de Renato Araújo da Silva. A ideia é simples e poderosa: mostrar que a criatividade contemporânea nasce de raízes profundas, conectando tradições milenares com linguagens artísticas atuais.

Depois de passar por Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Salvador, a exposição chega a Brasília reafirmando a força desse diálogo cultural que atravessa oceanos, gerações e linguagens. Com patrocínio da BB Asset, por meio da Lei Rouanet, “Ancestral: Afro-Américas” fica em cartaz até 3 de maio.

Se a abertura já foi memorável, a exposição promete continuar provocando reflexões, encontros e descobertas nas próximas semanas. Afinal, como essa mostra deixa claro logo na primeira sala: certas histórias não pertencem apenas ao passado — elas seguem vivas, reinventando o presente. Confira fotos de quem passou por lá pelas lentes deste colunista/fotógrafo:

Marcello Dantas
Ana Beatriz Almeida, Ialê e Lydia Garcia
Andrey Lemos e Waleska Barbosa
Beto Osório e Adelaide Oliveira
Luciano Gomes e Andréa Siqueira
Adê Mire Ribeiro, Kellen Vieira, Jaqueline Fernandes e Cinthia Santos
Alberto Salgado e Carol Senna
Paula Pratini e Matt Ferreira
Neide Rafael e Rosimar Muanda
Vírginia Rodrigues e José Rodrigues
Matheus Abu e Hodari Garcia
Thiago Malva e Dai Schmidt
Gustavo Vieira, Luciana Reis e Ana Maria Siqueira
Juliana Ridrighiero e Roberto Heiden
Alexandre Beltran e Ingridy Carvalho

Revisitando nossas origens!

Ancestral: Afro-Américas / Centro Cultural Banco do Brasil Brasília / até 3 de maio – terça a domingo das 9h às 21h (acesso às galerias até 20h40) / Entrada gratuita, mediante retirada de ingresso no site ou na bilheteria do CCBB. / Não esqueça: Vem pro CCBB – transporte gratuito de van saindo da Biblioteca Nacional para o CCBB, de quinta a domingo.

Fotos: Gilberto Evangelista

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