E se a poesia for engraçada?

Gregório Duvivier leva “O Céu da Língua” a Brasília para misturar literatura, humor e as maluquices do português em duas sessões no Ulysses.

Quem tem medo de poesia talvez precise apenas de uma boa dose de Gregório Duvivier. A dica da Coluna #PERAMBULANDO para quem gosta de teatro, literatura e, principalmente, de dar boas risadas com aquilo que a gente fala todos os dias é “O Céu da Língua”, monólogo que chega a Brasília nesta quinta e sexta-feira, 10 e 11 de setembro, no Ulysses Centro de Convenções. Depois de uma temporada de sucesso em Portugal, o espetáculo dirigido por Luciana Paes propõe uma brincadeira deliciosa: descobrir que a poesia está muito mais perto da gente do que imaginamos.

Formado em Letras, autor de três livros de poesia e conhecido pelo humor afiado, Gregório transforma o português em matéria-prima para 85 minutos de espetáculo. Conversas entre apaixonados, códigos secretos entre pais e filhos, gírias que ressuscitam com novos significados, reformas ortográficas, palavras corporativas como “briefing” e “disruptivo” e até termos como “afta”, “íngua” e “seborreia” entram na brincadeira. Tudo para mostrar que existe poesia até onde, convenhamos, a gente jamais procuraria por ela.

A montagem nasceu inicialmente como uma homenagem aos 500 anos de Luís de Camões e marcou o retorno de Gregório ao teatro com um texto inédito depois de cinco anos. Em Portugal, onde estreou, recebeu elogios da crítica e encontrou um público tão apaixonado pela língua portuguesa quanto o próprio artista. “Uma ode à língua portuguesa e ao poder da palavra”, escreveu Suzana Verde, do Observador. Para o cronista Miguel Esteves Cardoso, Gregório é “um artista completo”, daqueles que parecem ter nascido para transitar entre diferentes linguagens.

E não espere um recital comportado. “O Céu da Língua” fica, como define o próprio Gregório, “na esquina do poema com a piada”. A direção de Luciana Paes, parceira do artista em “Portátil” e em trabalhos do Porta dos Fundos, aposta em uma encenação minimalista, praticamente sem cenário. No palco, o instrumentista Pedro Aune cria a trilha sonora ao vivo no contrabaixo, enquanto Theodora Duvivier, irmã de Gregório, assina as projeções que ajudam a construir a narrativa.

No meio dessa conversa entre palavra e humor, surgem ainda metáforas que usamos sem pensar, como “batata da perna”, “céu da boca” e “pisando em ovos”, além de referências a grandes letristas da música brasileira, como Orestes Barbosa e Caetano Veloso. A ideia é justamente tirar a poesia daquele pedestal sisudo que muitas vezes assusta quem acha que ela é complicada demais.

“A poesia é uma fonte de humor involuntário, motivo de chacota. Escrevi uma peça que pode ajudar alguém a enxergar melhor o que os poetas querem dizer e, para isso, a gente precisa trocar os óculos de leitura”, explica Gregório.

Então fica a dica: talvez você entre no Ulysses achando que vai assistir a uma comédia e saia de lá olhando para o português com outros olhos. Ou, quem sabe, prestando mais atenção naquela palavra estranha que alguém acabou de falar. Afinal, como Gregório parece querer nos provar, até a língua nossa de cada dia pode esconder um poema. E uma boa piada, claro.

SERVIÇO

“O Céu da Língua”
Data: 10 e 11 de setembro
Local: Ulysses Centro de Convenções
Horários: 19h e 21h30
Ingressos: Ingresso Digital

Fotos: Annelize Tozetto e Lina Sumizono
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