Yayoi Kusama, o fim do pontilhado

Da dor psíquica às bolinhas que conquistaram o mundo, artista japonesa transformou alucinações em linguagem artística, aproximou arte da moda e levou mais de 400 mil pessoas ao CCBB Brasília.

Há artistas que fazem arte. Yayoi Kusama fez de si própria uma obra de arte. E talvez seja justamente por isso que sua morte, anunciada nesta quinta-feira, 27 de agosto, aos 97 anos, pese tanto sobre o mundo da cultura. A artista japonesa morreu em 14 de agosto, em um hospital de Tóquio, onde vivia por vontade própria havia décadas. Até os últimos dias, continuou pintando.

Kusama passou a vida transformando aquilo que poderia ser visto apenas como sofrimento em uma das linguagens mais reconhecíveis da arte contemporânea. Desde a infância, convivia com alucinações visuais e descrevia experiências em que enxergava pontos, redes e padrões que pareciam se multiplicar indefinidamente. Em vez de esconder esse universo, ela o colocou na tela, na escultura, na performance e, mais tarde, em instalações imersivas que fizeram milhões de pessoas entrar literalmente dentro de sua mente. As famosas bolinhas, portanto, nunca foram apenas uma assinatura estética: eram também uma maneira de dar forma ao que ela via e sentia.

E aqui está uma das dimensões mais importantes de seu legado. Kusama ajudou a retirar o sofrimento psíquico do lugar de silêncio e vergonha e colocá-lo no centro da conversa sobre criação, identidade e existência. Ela falava abertamente sobre suas alucinações e sobre a relação entre sua saúde mental e sua produção artística. Depois de retornar ao Japão, em 1973, passou a viver em uma instituição psiquiátrica em Tóquio, mantendo um ateliê próximo e uma rotina de produção que atravessou décadas. Sua arte não deve, evidentemente, ser reduzida à doença — Kusama foi uma artista extremamente sofisticada, consciente e radical —, mas é impossível compreender a potência de sua obra sem reconhecer como ela transformou uma experiência psíquica profundamente particular em uma linguagem universal.

Foi assim que pontos viraram infinito. E o infinito virou espelho, luz, abóbora, sexo, corpo, natureza, obsessão e, sobretudo, experiência. Nas Infinity Mirror Rooms, o visitante deixa de ser apenas espectador e passa a fazer parte da obra, perdido entre reflexos e pontos luminosos. Em Inhotim, onde ganhou uma galeria permanente em 2023, estão duas dessas experiências imersivas, I’m Here, But Nothing e Aftermath of Obliteration of Eternity, além de Narcissus Garden, com centenas de esferas espelhadas sobre a água.

E se hoje parece absolutamente natural ver arte contemporânea atravessar as fronteiras dos museus, da publicidade, da música e da moda, Kusama ajudou a pavimentar esse caminho. Ela entendeu antes de muita gente que uma linguagem artística potente poderia ocupar também o cotidiano. Um dos capítulos mais emblemáticos foi sua parceria com a Louis Vuitton, iniciada a partir do encontro com Marc Jacobs e transformada em coleções que levaram seus famosos polka dots para bolsas, roupas, sapatos e acessórios. A colaboração voltou a ganhar força em 2023, quando a maison retomou o universo visual da artista em uma nova coleção.

Mas Brasília também tem uma história especial com essa mulher que parecia enxergar o mundo em outra frequência. Em 2014, a exposição “Obsessão Infinita”, apresentada no CCBB Brasília, levou mais de 400 mil visitantes às galerias — recorde de público do centro cultural na capital até então. Filas enormes se formaram diante de uma exposição que transformou pontos, espelhos, luzes e repetição em um fenômeno popular. Brasília, que tantas vezes se orgulha de sua monumentalidade arquitetônica, descobriu ali uma outra forma de ocupar o espaço: entrando no universo infinito de Kusama.

 

Talvez seja essa a imagem que fica. Uma mulher japonesa que saiu de Matsumoto, atravessou a vanguarda de Nova York nos anos 1960, enfrentou preconceitos, apagamentos e crises, voltou ao Japão e, sem abandonar suas obsessões, construiu uma das identidades mais poderosas da arte mundial. Uma artista que fez da repetição uma revolução e daquilo que poderia ser considerado um limite uma possibilidade de expansão.

Yayoi Kusama nos ensinou que o infinito pode caber em uma bolinha. Que uma alucinação pode virar linguagem. Que a arte também pode ser abrigo. E que aquilo que nos assusta, quando encontra forma, talvez deixe de nos dominar.

A artista partiu, mas seu universo não tem a menor intenção de acabar. E talvez seja exatamente por isso que suas bolinhas continuam nos olhando de volta.

 

P.s. Siga @yayoikusamamuseum

Fotos: Reprodução/Instagram
Curtiu? Compartilhe!
Rolar para cima