PALCO: quando super criadores optam por amar a moda

Luiz Cláudio e Carlos Penna unem trajetórias de mais de uma década em uma nova marca autoral que transforma alfaiataria, matéria e identidade em experiência 

Na moda, algumas parcerias nascem de uma estratégia. Outras, de uma afinidade construída lentamente, entre conversas, trabalhos compartilhados e uma vontade que insiste em permanecer. A PALCO, nova marca que conta, de um lado com estilista Luiz Cláudio Silva, fundador da elogiada Apartamento 03, e do mesmo lado, o designer Carlos Penna, criador de verdadeiras joias contemporâneas, que desafiam estilos, traduzem afinidade em todos os idiomas possíveis. É fruto de uma relação profissional iniciada há mais de dez anos e, ao mesmo tempo, representa a reinterpretação de recomeço para dois criadores que decidiram abrir espaço para aquilo que ainda não havia encontrado lugar em seus universos individuais. É papo de reinvenção, sabe como é?

Transformação estratégica e experimentação de novas realidades de criar, assim pode se definir a Palco, a partir de seus Luiz Claudio e Carlos Penna

Mineiros, os dois se conheceram em São Paulo e começaram a trabalhar juntos em 2015, quando Carlos Penna passou a desenvolver acessórios para os desfiles da Apartamento 03. A parceria atravessou os anos e ganhou uma nova dimensão até desembocar na criação da PALCO — não como uma extensão das marcas que cada um já possui, mas como uma terceira identidade, construída a quatro mãos.

O nome escolhido já anuncia a intenção. PALCO é lugar de presença, de personagem, de transformação. É onde alguém entra para assumir uma narrativa. E é justamente essa relação entre roupa e identidade que orienta a nova marca. Para Luiz Cláudio, a proposta passa pelo “desejo de recuperar o encantamento com a moda e experimentar com maior liberdade”, construindo roupas, personas e diferentes possibilidades de ser e vestir.

Alfaiataria como ponto de partida

A primeira coleção apresentada pela PALCO, recebeu o nome de Ato 1 e tem na alfaiataria seu eixo principal. Calças, blazers e trench coats aparecem em construções amplas, com modelagens retas e sem marcação de cintura. A linguagem masculina está no centro do projeto, mas a própria apresentação tratou de ampliar essa fronteira ao levar mulheres para a passarela, entre elas as atrizes Aline Wirley, Gabriela Loran e Bárbara Colen.

Alfaiataria com calças, blazers e trench coats reformulam traços de uma moda sem gênero e com suspiros de monumentalidade

O mais interessante, porém, está no diálogo entre a precisão da alfaiataria e a liberdade dos materiais. Cetim, crochê, couro e detalhes metálicos convivem com uma pesquisa têxtil que incorpora malhas de cobre e fibras provenientes de pneus. São experimentações que revelam a intenção da marca de funcionar também como um laboratório criativo — um território onde os dois estilistas possam testar aquilo que não necessariamente caberia em seus trabalhos individuais.

A produção nasce em pequena escala, combinando peças experimentais feitas sob medida e uma linha de ready-to-wear para poucos e exclusivos clientes. A escolha reforça uma ideia cada vez mais necessária na moda contemporânea: menos volume, mais intenção.

Moda que ocupa a cena

A estreia da PALCO aconteceu em 30 de setembro, na União Fraterna, em São Paulo, em uma apresentação que fugiu deliberadamente do desfile convencional. Moda, teatro, corpo, movimento, trilha e espaço foram articulados para criar uma experiência cênica. A escolha não poderia ser mais coerente com o nome da marca.

Bárbara Colen: uma das artistas em cena pela Palco

Mais do que apresentar uma coleção, Luiz Cláudio e Carlos Penna parecem querer apresentar uma possibilidade: a de voltar a enxergar a moda como território de descoberta.

E talvez seja justamente essa a vocação mais interessante da PALCO. Não chegar com respostas prontas, mas abrir espaço para novas perguntas. Porque vestir, quando existe criação verdadeira, nunca é apenas colocar uma roupa sobre o corpo. Pode ser considerado como o entrar em cena de um espetáculo.


Imagens: Zé Takahashi/Divulgação

 

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