Kenzo Takada: o homem que nos ensinou a apreciar o experimental e o poder das cores

Estilista japonês, radicado em Paris ainda na década de 1970, Kenzo Takada teve morte confirmada bem no meio da semana de moda de Paris de 2020
Por: Fernando Lackman (em isolamento social)

Kenzo Takada festejou sua “orientalidade”, expôs a essência de seu povo e , mas foi fazendo moda com pensamento voltado para muitas nações que conquistou o mundo com seus traços e croquis retilíneos. Ser pioneiro tem suas vantagens, mas muitas desvantagens o acompanharam por isso também. Kenzo precisou provar que não estava na Paris de 1970 como um trabalhador de serviços. Ele era um oriental com enorme poder de criação e assim o fez. Abriu espaços, usou sua inventividade em favor de convencer a Europa e o mundo de que seu papel era estar entre os melhores. Sua morte aos 81 anos, vítima de covid-19 foi confirmada pelo seu porta-voz. Ele morreu em Neuilly-sur-Seine, nos arredores de Paris, cidade onde fundou sua Jungle Jap e depois, a empresa de moda e perfumes que levou seu nome.

Desfile da coleção Circa de Kenzo na Paris Fashion Week, em 1991. Dois anos mais tarde, o estilista venderia sua marca. (By PL Gould)

Kenzo abriu caminhos para que mais tarde Issey Miyake e Yohji Yamamoto pudessem desbravar sem ter que provar que ser asiático era invasivo em um mercado repleto de códigos e regras de criação. Foi aceito, consumido, construiu um império e fez uma história linda de ser contada com conceitos estruturais e experimentais, menos dramático que Issey e Yohji, mas com uma carga artística, que até hoje influencia criadores contemporâneos.

Ensaio fotográfico de Kenzo Takada em sua casa em Paris (2019). (By Joel Saget/AFP)

José Gayegos, estilista e um dos mais experientes nomes da moda brasileira, contou em suas redes sociais sua experiência histórica com Kenzo.

“Em 1971 comecei a estudar na Guerre-Lavigne, hoje ESMOD PARIS, na Rue 4 de Septembre. Ao lado, ficava a – na época decadente – Galerie Vivianne.  Lá tinha uma lojinha de tricôs lindos criados por um japonezinho simpático chamado Kenzo Takada. Era a Jungle Jap. Foi ele quem indicou uma loja especializada em produtos para modelagem e costura logo ao lado. Cruzávamos toda hora. O tempo passou, eu voltei para o Brasil em 1972 e ele se tornou um dos maiores criadores da nossa época. Anos depois, ele comprou e reformou um prédio inteiro na Rue Sedaine, por coincidência, perto do apartamento de um grande amigo onde eu me hospedava quando ia a Paris. Certo dia, cruzei com ele saindo e não é que me reconheceu! R.I.P KENZO.”

Kenzo foi um homem sem grandes escândalos nas costas, não apareceu em tabloides com manchetes que poderiam manchar sua reputação ilibada. Formou-se no Bunka Fashion College de Tóquio – que só abriu as portas para homens em 1958.

Em 1970, com muita vontade de exercer sua função de criador e uma máquina de costura alugada, Kenzo se pôs a trabalhar e criou sua primeira coleção em terras francesas. Usou cortes de tecidos, quimonos velhos e retalhos comprados em brechós. Sim, Kenzo criara o que hoje chamamos de sustentabilidade na moda. Hoje, depois de tantas coleções, sua identidade é identificada pelo uso de cores, grafismos e experimentação.

Após vender sua marca, Kenzo investiu em criações de obras de arte em seu ateliê particular

Para jornalistas que viram de perto toda engenhosidade de Kenzo Takada ficam lembranças lindas e, sobretudo, inesquecíveis, como no post feito pela super jornalista Regina Guerreiro.

“Estou super triste: Kenzo morreu. Fui ao seu primeiro desfile, que aconteceu na Galeries Viviennes. Ele colocou algumas cadeiras no corredor da própria galeria, e foi lá que me apaixonei pelos pulls jacquard (feitos à mão), mais lindinhos que eu já tinha visto na minha vida. No comecinho dos anos 70’, consegui entrevistar o próprio. Uma graça de pessoa. Mocinho, ingênuo, recém chegado no mundo da moda. Eu estava com o fotógrafo Michel Giquel, e ele fez um clique do Kenzo, varrendo seu mini escritório. Não acho mais essa foto. Pena. Depois, veio a Jap (Place Des Victoires), e me vestiu durante longos Anos. Lembro que uma vez, fui com uma saia de cobrir no Rio uma feira de moda e… Socorro! Minha saia já estava copiada por uma badalada estilista carioca. Quando saiu na minha coluna no Estadão, ela quase quiz me bater. Ai My God. a pobre história da moda brasileira… Consequências péssimas: jornalistas brasileiras foram durante anos, barradas nos desfiles dele. Euzinha, inclusive.”

Croquis de Kenzo publicados em livro que reconta a história do estilista.

O pernambucano radicado em Brasília, Romildo Nascimento, tem muito a agradecer a Kenzo. Em rede social postou uma história sobre como o estilista japonês fez diferença em sua vida.

“Kenzo veio a Brasília para conhecer o trabalho dos estilistas locais, quando soube que eu era um dos estilistas, fiquei pensando, o que vou apresentar para um dos maiores do mundo?

Depois de alguns dias veio a ideia, renda renascença só tem no Brasil e é linda. Peguei um caminho de mesa e transformei em uma camisa, depois o Antônio Macarius, de Pernambuco, me mandou mais alguns pedaços de renda e produzi mais um look.

No dia do evento o Kenzo estava acompanhado da Ângela Hirata, e após o desfile, Ângela me chamou e pediu que eu mostrasse as peças ao Kenzo de pertinho, eu não falo inglês muito menos japonês (risos) ela traduziu tudo o que eu falava.

Kenzo gostou tanto que perguntou quanto era, na hora falei para o senhor é de graça, ele meio sem graça abriu a carteira e me deu 100 euros, nunca tinha visto euro na minha vida. Ele gostou tanto que trocou de roupa ali mesmo, tirou a Dior que estava vestindo e colocou a minha criação. Sem saber Kenzo me proporcionou várias realizações.”

Nesse mesmo encontro de Romildo com o astro, que ocorreu em 2011, tive minha experiência de vida com o que seria um dos momentos mais sentimentais que a moda me proporcionara. Como jornalista, tive o prazer de cumprimentá-lo e fazer uma única pergunta: “O que tem achado do povo brasileiro?”, ele simpático, respondeu: “Chaleureuz, vrai et créatif” (caloroso, verdadeiro e criativo). Kenzo era dono de um império de admiradores de suas criações e de sua trajetória. Ali ele acabara de ganhar mais um fã. Este fã era eu.

Fotos: Joel Saget / Agence France-Presse - Getty Images - CNN - Associated Press

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