ARTIGO: “NECESSIDADE OU CONSUMO?”, POR THIAGO ÂNGELO

Retomada do comércio pós-pandemia reascende onda de consumismo

Por Thiago Angelo Q. O. dos Santos (*)

Parece que não faz muito tempo, a pandemia do CORONAVIRUS parecia ser apenas uma mera realidade paralela, pois, vimos como nunca um isolamento social ser decretado no mundo todo como forma de controlar. Foi assim que o comércio, shoppings, lojas de rua do dia para a noite baixaram suas portas sem expectativa de reabertura.

Estudos levantaram hipóteses de que o consumidor pós-pandemia seria mais consciente, mais reflexivo com as compras e cauteloso ao adquirir itens não considerados de primeira necessidade (alimentos, remédios). A moda no que tange ao consumo brasileiro por esses itens, por sua vez, de acordo com a Euromonitor ocupa a quinta posição como um dos maiores mercados consumidores. Em contraponto, sofreu um forte golpe com a questão da pandemia sendo um dos segmentos mais impactados. Devido ser encarada nesse momento como supérflua.

Hoje se fala muito em um “novo normal”. Mas o que seria esse normal? Parece a pergunta de um milhão de dólares, e sim, é uma realidade que teremos que contar para a posteridade. E como lidar com a ansiedade e a angústia dos dias de isolamento. Voltar as compras? Bom, parece que o status de necessidades foram atualizadas. E sim as pessoas voltaram às compras.

Hoje se fala muito em um “novo normal”. Mas o que seria esse normal?

Mas, enfim, como se explicam as filas e mais filas que se configuraram por diversos países da Europa que por ora já estão com os seus comércios reabertos. De Zara a Louis Vuitton as filas para as lojas de roupas estavam quilométricas. Nas redes sociais marcas como a H&M fizeram vídeos desse momento de portas abertas. Na china, Hermès bateu recorde de vendas em um dia vendendo impressionantes R$ 2,7 milhões de dólares. Mas se discutiu também que na china as marcas internacionais teriam dificuldades perante o patriotismo.

Aqui não nos cabe fazer julgamentos do que é prioridade para cada um, mas, no que diz à MODA muito se discutiu sobre a reformulação dos calendários de lançamentos de coleções, o calendário de liquidação, a discussão do fechamento do comércio não essencial como as lojas de vestuário, calçados e acessórios, a sustentabilidade e o consumo consciente na moda. Bom tudo isso foi questionado e colocado à prova.

A loja de fast fashion, Primark, por exemplo entrou na onda do TikTok e fez um vídeo super criativo usando manequins passeando pela loja com as roupas que os consumidores poderiam encontrar na loja. Visualmente encantador e criatividade impecável. Mas se olharmos nas entrelinhas, podemos observar a mensagem COMPRE ou VENHA para a Primark estamos abertos.

@primark

Mannequin Story 😜 In-between prepping the store for when we’re able reopen, our Essen team got creative 😂 #boredinthehouse #primark #fyp

♬ original sound – curtisroach

Dito isso, trago como reflexão as discussões levantadas por duas autoras de livros que discutem a questão do consumismo. Em Mentes consumistas e Detox de compras, respectivamente, de Ana Beatriz Barbosa Silva e Carol Sandler, são traçadas relações entre pessoas e suas “necessidades” versus impulsos de compra. O que as leva a comprar? O que já pode ser considerado uma doença? Como diferenciar o impulso? Por esses e outras reflexões que as autoras discorrem como nós encaramos a nossa relação com o ato de comprar.

Mas, e o consumo consciente na moda que se discutia? Não só na moda, mas, como qualquer outra forma de consumo, há uma variável muito relevante de se levar em consideração – o fator de que o consumidor tem percepções de prioridades muito diferente um para o outro. Ao analisar o comportamento de consumo temos diversos cenários de compra que precisamos entender. Houve aqueles que preferiram não consumir, pois, a quarentena proporcionou a eles a reflexão de suas necessidades. Por outro lado, tiveram consumidores que não viam a hora de sair para a rua e dar uma passeada no shopping ou nos comércios locais de forma a adquirir artigos de vestuário, calçados e acessórios e outros. Mas, houve também os que iniciaram suas primeiras compras pela internet e os que continuaram comprando mesmo online. E há o consumidor que provavelmente não comprou absolutamente nada.

Nessa mesma linha voltada às marcas é perceptível ver aquelas que depositaram seu foco no reforço de estratégias digitais ou ampliação, tiveram as que disseminaram o propósito de marca e empatia com o consumidor e outras marcas que aumentaram seu engajamento como melhor forma de se relacionar com o seu cliente. Também, observamos algumas marcas reduzir a quantidade de promoções na oferta de produtos e optaram por apostar em conteúdo para as pessoas. Porém, houve marcas que foram vistas como oportunistas por insistir no velho modelo de varejo de vender a qualquer custo.

A COVID-19 por não ter um parâmetro ou precedentes que nos permita defender o que é certo ou errado para as marcas ou pessoas fazerem, acaba por nos colocar em modo reset como defende Camila Salek. O que esse “novo normal” nos espera?

Vale aqui a reflexão diária do que aprendemos com isso tudo. O futuro é uma caixa de surpresa e a flexibilidade e resiliência no modus operandi dos negócios foi colocada à prova expondo as fragilidades empresariais dos pequenos negócios.

Agora é possível verificar o começo do processo de seleção natural de marcas que estarão entre nós daqui alguns anos. Isso nos remete a nossa lembrança de tantas marcas que já deixaram de existir por acreditar que o negócio nasceu e deveria morrer da mesma forma. Para que inovar?

(*) Thiago Angelo Q. O. dos Santos é Graduado em Relações Internacionais (IESB). Pós-graduado em Gestão Cultural (SENAC). Tem MBA em Gestão Empresarial com ênfase em Estratégia (FGV). Pós-graduado em Gestão de Varejo (SENAC). Gestor de projetos de moda no SEBRAE no DF. No instagram: @thiagoangelo.
Fotos: Google e Tiktok

 

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