ARTIGO: “As máscaras da individualidade”, por Thiago Ângelo

O novo mundo pede passagem e cabe aos criativos entenderem que oportunidade é diferente de oportunismo

Por Thiago Angelo Q. O. dos Santos (*)

Acostumada a trabalhar em um planejamento de coleção com uma prévia de no mínimo 6 meses, a moda, viu de um dia para o outro, uma leva de cancelamentos nunca vista nos últimos 100 anos. Isso serve também para o mundo. Quem diria que na virada 2019/2020 tudo viraria um verdadeiro caos e sob um novo ordenamento. Esse reordenamento tem nome, COVID-19, que é a principal protagonista das readequações que empresas e pessoas estão fazendo diariamente na atualidade.

A máxima APRENDER, DESAPRENDER e REAPRENDER coloca em prova a nossa capacidade de flexibilização e de saber lidar com gestão de crises.
Coleções, desfiles, calendários, tendências e previsões nesse momento caíram por terra, ou melhor, saíram de moda. Nesse novo cenário fica ainda mais claro que a moda, como a víamos, já não estava indo bem faz tempos. A COVID-19 como disse André Carvalhal em uma de suas lives dividiu o mundo — assim como a moda —, em três etapas: Pré-pandemia, Pandemia já instalada e Pós-pandemia. O novo normal como defende alguns soa até pretensioso por dizer que ainda haja uma certa normalidade.

“A moda como a conhecemos, vista como supérflua por alguns, perde espaço se não for trabalhada de forma que o seu consumidor enxergue atitudes verdadeiras nas intenções.”

Que diga a Vogue Brasil estampando em sua capa de maio o título “novo normal” com Gisele Bündchen, a Uber Model, em uma fotografia preto e branco e vestida por grandes grifes dos pés a cabeça. A atitude demonstra que a revista tem vivido e ostentado o imaginário de um glamour surreal da moda em sua escala máxima.

O mundo está diferente e deve ser encarado como tal. Utilizando expressões incluídas no glossário da moda diria que agora mais do que nunca, o meio está repleto de diversidade.

Vimos uma pulverização de um levante digital e reforço de presença na rede jamais visto antes por empresas de diversos segmentos. Viva as LIVES. A moda, por sua vez, se não encontrar sua voz física e digital de maneira mais autêntica e empática tem grandes chances de levar mais tempo para se recuperar dessa fotografia e estética pandêmica na qual nos encontramos.

Enganam-se as marcas de moda que acreditam que não se reinventar agora — quando é mais urgente ter empatia e estar inseridas no meio digital — estarão nas listas de tantas que deixarão de existir. Insistir em fazer o novo com velhos hábitos e querer resultados é desconsiderar que o normal não existe mais. Devido ao que estamos vivendo os consumidores estão mais sensíveis e um novo comportamento de consumo já se instalou.

A moda como a conhecemos, vista como supérflua por alguns, perde espaço se não for trabalhada de forma que o seu consumidor enxergue atitudes verdadeiras nas intenções. Sem isso, terão cada vez menos espaço na mente e coração dos clientes. A venda pela venda não deve ser trabalhada como o único fim dessa relação marca e consumidor.

É preciso que a moda não seja vista como oportunista e invasiva nesse momento. A venda por oportunidade é melhor vista se por trás dessa intenção houver o estabelecimento de laços emotivos reais e profundos.

Já ouviu falar em CRM? Pois bem. Se não, melhor buscar informação sobre isso. Informação é poder. Nos vemos em uma intoxicação diária de notícias e dados sobre consumo, mercado, saúde e outras pautas que nos levam a refletir sobre quais desses dados fazem sentido nos negócios. Quem, atualmente, tem feito essa reconstrução de relacionamentos e observou a necessidade digital evidente, tem saído à frente.

Passado o pânico do fechamento do comércio, tem sido observado um crescente número de marcas e pessoas na confecção de máscaras para uso contra a contaminação do coronavírus. A máscara é uma ação paliativa e exige que, aqueles que as tem fabricado observem os protocolos, regulamentos e orientações dos órgãos de saúde sobre como se adequar às medidas.

Ao mesmo tempo, a criação de um acessório de moda como as máscaras, passa agora por um período muito delicado que abre espaço para críticas por parecer algo oportunista por alguns. A exemplo, a produção como item adicional de coleção para gerar desejo e um consumo desenfreado apenas pelo simples fato de ostentar uma Label (marca) X ou Y.

Dois casos podem ser citados para que essa análise possa ser feita com coerência. Um caso interessante de citar é o da marca OFF-WHITE, de Virgil Ablouh, que tem suas face masks segundo a Lyst, plataforma global de moda, como o item mais procurado do primeiro trimestre de 2020. A procura pelo item, pasmem, teve um aumento de 496% e custa $ 95 cada. Detalhe, esgotaram e são revendidas por outras plataformas com valores absurdos e abusivos.

Face Mask Off-White

Outra intenção de também promover o uso das máscaras foi da marca brasileira OSKLEN que lançou em suas redes e plataforma de e-commerce o KIT de máscaras por R$ 147,00.

Máscaras Osklen

A ação gerou um burburinho na internet e de uma hora pra outra a ação foi bombardeada por classificarem a marca como oportunista devido ao preço praticado, ainda que tenha sido dada justificativa de terem aberto os custos e por se tratar de uma ação solidária.

Marcas menores, por exemplo, têm comercializado máscaras pelo preço de custo e adequando sua forma de trabalho em prol de uma causa e não apenas pela unilateralidade do ganho.

Dessa forma, a moda mais uma vez vai em contramão a um discurso de promover o fazer e consumir moda de maneira mais sustentável. O item máscara é uma realidade, sim, mas em meio a uma pandemia deve ser encarada como uma ação positiva e proativa de marcas que pensam de forma mais empática nas pessoas e menos no lucro.

Sim estamos todos confinados e de portas fechadas. No entanto, marcas tem que encarar que surgem com um propósito: o de servir as pessoas. Por quais motivos sua marca quer ser lembrada? Já pensou nisso?

Sentir o clima que pesa sobre nós para que possamos ressignificar a moda de verdade e que a indústria saia mais fortalecida e consciente de seu papel enquanto indústria é o ideal. Vale lembrar que a indústria da moda é uma das que mais emprega no mundo apesar de toda a controvérsia das condições de trabalho e impactos ambientais gerados.

É tempo de unir as habilidades da moda, a habilidade manual da costura e outros feitos dessa cadeia para mostrar que a MODA, mais do que nunca, não se trata apenas de superficialidade, e sim de um setor relevante para o bem comum.

(*) Thiago Angelo Q. O. dos Santos é Graduado em Relações Internacionais (IESB). Pós-graduado em Gestão Cultural (SENAC). Tem MBA em Gestão Empresarial com ênfase em Estratégia (FGV). Pós-graduado em Gestão de Varejo (SENAC). Gestor de projetos de moda no SEBRAE no DF. No instagram: @thiagoangelo.
Foto: https://loja.apontocriativo.com.br, Off-White/Divulgação e Osklen/Divulgação

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